Ontem houve debate no parlamento sobre o Estado da Nação. É uma discussão que, para a grande maioria da população, passa despercebida e não é propriamente um tema de café que se equipare às contratações futebolísticas propícias da época ou ao caso da Madeleine Mccann cujas notícias ainda vão aparecendo teimosamente, aqui e ali, nos jornais.
Sócrates fez um balanço previsivelmente positivo, apresentando indicadores económicos animadores e mostrando estar de volta à sua melhor forma quando lidou com os argumentos da oposição.
Sócrates é, muito provavelmente, o primeiro-ministro com menos habilitações e curriculo que já tivemos no posto. Tem uma licenciatura numa engenharia com pouca tradição em Portugal. Que ainda por cima foi posta em causa acerrimamente na praça pública. No entanto, tem demonstrado uma inteligência política invulgar que o vai colocar, para o bem ou para o mal, numa posição de destaque desta década.
Saramago disse recentemente que Sócrates é uma incógnita. Citando-o: "A sensação que me dá quando fala é que não pensa aquilo que diz, que há outra coisa.". De facto, cada palavra parece ser medida, tudo parece ser calculado ao mínimo detalhe, de modo a evitar manchetes nos jornais. Não me recordo de uma gaffe grave sua.
Nem é preciso recuar muito tempo para apreciar os seus delicados movimentos políticos. Depois da fase mais negra do seu governo, com o caso da licenciatura, com sucessivas gaffes dos seus ministros (principalmente do Ministro da Saúde) e com as críticas que surgem de autoritarismo, Sócrates reaparece novamente por cima, com uma boa parte da opinião pública a manter-se fiel ao seu governo. No primeiro caso, soube falar na altura correcta, permitindo apenas uma entrevista na televisão pública, acabando por convencer a maioria dos seus opositores. Os ministros menos populares ainda por lá se mantêm, tentando passar uma imagem de segurança e confiança sobre o seus mandatários. E em relação ao autoritarismo, Sócrates responde com exemplos da oposição, para a direita relembrou o caso da censura de Saramago, para o PCP enviou um recado sobre as manifestações dos membros deste partido em eventos do PS.
Pelo meio, ainda consegue definir um importante acordo entre o Brasil e a Europa e agudiza a crise da direita, ao abdicar de um pilar do seu governo para o seu partido vencer as eleições de Lisboa.
O primeiro-ministro pode não ter muitos amigos, especialmente numa imprensa liderada por homens da direita. Mas sabe gerir, como ninguém, os seus inimigos. Ataca a Banca, a Madeira e a própria despesa pública, para gáudio da população. Pouco importa se os efeitos práticos foram pouco significativos, porque ele já conquistou a simpatia das pessoas.
É facil advertir para os perigos que um homem tão hábil politicamente poderá trazer para o futuro do nosso país. Se ele conseguir convencer o português comum de que o nosso governo ainda é de esquerda, então terá tido sucesso absoluto no seu discurso. Isto enquanto continua a recolher apoios de direita.
Por enquanto, e apesar dos números do Governo, não se vêm grandes melhorias em relação a anteriores governos. Basta olhar para as notícias mais recentes para verificar que continuamos pobres e maus a Matemática. E, no final, o que interessa é a satisfação da população. E essa, apesar de iludida com as palavras de Sócrates, continua infeliz.
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