A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus
produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes
superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de
restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que
trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar
portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e
"petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a
toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as
últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam
diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces,
compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os
artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão
ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os
inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste
velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem
não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem
não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de
produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a
toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são
poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas
directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do
mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do
Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do
pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas
certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel
da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os
estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e
jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas
de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro.
Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata
que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou
Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude
fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas,
queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que
tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão
verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.
Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre
é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e
azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça?
Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias
de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado?
Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é
proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas
especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos
pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos?
Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao
encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas
não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem
de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode
cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta
"produto não válido", mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma
sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora
dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou
açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de
plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido.
As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com
célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes
por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três
vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo
funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos?
Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde
que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das
mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a
data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e
leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de
leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa
saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para
estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as
brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas.
Para nosso bem, pois claro.
19 fevereiro, 2008
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1 comentário:
Hmmm, mas isso soa tudo bem.
Se tas a cozinhar para ti, a culpa e so tua se te envenenas, mas assim que estas a vender um produto, sobretudo sensivel como para alimentacao, acho que o controlo pelo processo todo e' altamente necessario para garantir a qualidade do que metes na boca.
Exemplo facil: Imagina que es uma daquelas pessoas alergicas a amendoins ou outras nozes quaisquer. Vais ao cafe e pedes uma bola de berlim. Mas a bola de berlim foi confeccionada pela Maria Clotilde, do 2o esquerdo, e como nao existe qq tipo de controlo, a mulher deixa cair uns amendoins triturados para a bacia onde mistura a massa(que durante a semana usa para lavar os pes). A Clotilde pensa "quero que se foda, ate da mais gostinho a massa", enquanto umas horas mais tarde o sujeito alergico morre asfixiado na taverna do Ti manel.
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