A realidade actual ultrapassa a realidade prevista pelas revoluções sociais e políticas que lhe deram origem. Os processos intelectuais nos quais se basearam os princípios que ainda regem as legislações contemporâneas não podiam prever o exponencial desenvolvimento científico que se verificou. Todo este desenvolvimento permitiu o crescimento de entidades externas aos órgãos legislativos e governamentais, tornando-se mesmo muitas vezes as primeiras mais poderosas que os últimos, reformulando todos os conceitos que existiam políticos ou sociais. Já não se pode falar dos moldes económicos capitalistas como demónios, nem de um socialismo salvador. Palavras como liberdade, igualdade e escolha, definições como esquerda e direita perderam clareza, perderam impacto e são hoje um denso nevoeiro do qual podemos retirar conclusões tão concretas para um ponto de vista como o são para o exactamente contrário. As próprias fronteiras, outrora sulcos tremendos que separavam povos, diluem-se com uma constante globalização de movimentos de opinião. Nunca tanta informação pode chegar a tantos. E o que faz o homem perante esta revolução da sua realidade? Esconde-se atrás do conforto de uma ignorância selectiva. Os mecanismos de intervenção existem, a informação está disponível a quem a procurar e no entanto deixamo-nos adormecer. "Que impacto pode ter a vontade de um homem", pensa uma multidão em uníssono, sem contudo o partilhar.
Pensar-se-ia que o contacto com as realidades violentas da condição humana proporcionado pelos avanços tecnológicos na comunicação trouxe-se ao indivíduo a indignação perante o sofrimento do seu semelhante. Ao invés trouxe a habituação e o distanciamento. A nossa paz de espírito custa umas escassas moedas entregues ao mais próximo representante da pobreza, a entidade que mais emprega no planeta. "Paciência - pede o poder instituído - estamos a dar passos consistentes e consolidados em direcção à solução do problema." Entretanto gasta-se mais em perfume do que seria necessário para resolver o problema da água potável em Africa. Indigna-se a oposição: "São tudo processos desencadeados por neo-liberais, a quem só interessa a exploração da classe operária, a defesa de uma burguesia já beneficiada, tudo isto sustentado por uma promiscuidade entre o poder e os interesses económicos" e no final vão todos para um hotel de cinco estrelas celebrar tão gloriosa manifestação. Para o ouvido, nada de novo. Nada de chocante. Apenas as desculpas que já conhecemos, os termos a que já nos habituamos de tal forma que não só não sabemos o que querem dizer, como também já não queremos saber. Entretanto morrem mesmo todos os dias pessoas pelos motivos mais idiotas "não são pessoas - diz-me uma voz protectora - são números na televisão... três por segundo, cento e oitenta por minuto, dez mil e oitocentos por hora, duzentos e cinquenta e nove mil e duzentos por dia, mais quinze dias e estou de férias, mais três pontos e somos campeões, será que as taxas moderadoras vão subir..." tudo isto um ciclo computacional de repeat untill com a condição de fecho do ciclo por escrever. É cíclico. É previsível. É equilíbrio. É a dose de dor a que estamos habituados. É a ilusão de controlo por oposição, pois se não tem solução, resolvido está. "Que impacto pode ter a vontade de um homem", pensa uma multidão em uníssono, sem contudo o partilhar.
A ovelha Orphélia faz parte do rebanho. É parte dele, cresceu com ele, mas quer transcende-lo, pois visualizou o ciclo e procura por todos os meios o comando que o quebre, a condição de saída, o ponto de fuga. Sabe Orphelia que, tão grande como a incapacidade do poder vigente de implementar os princípios que ele próprio diz defender, só a ineficácia da oposição que o deveria dinamizar.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário