Alerta: este texto poderá ser considerado demasiado esquerdista pelas mentes menos abertas. Foram avisados.
Esta semana, durante três dias, irá ocorrer uma greve dos trabalhadores da GALP, que, dizem, irá acabar por paralisar as refinarias de Sines e do Porto. Certamente que existirão consequências para quem se quer abastecer de combustível nos próximos dias, mesmo que a Administração diga o contrário. Nós, como seres fatalmente egoístas, pensamos logo nos transtornos que isso nos irá colocar. A GALP oferece um aumento de 1,5%, os sindicatos querem 2.7%. Para uma empresa que só no ano passado teve um lucro a rondar 200M€, num ano de crise, principalmente para as petrolíferas, é natural que os sindicatos pensem que podem chegar a algum lado. Pelo menos até certo ponto. Este é um filme que já se viu. Se se lembrarem, no ano passado existiu uma guerra forte entre os trabalhadores da EDP e da REN e a respectiva Administração. Na altura os sindicatos exigiam uns ambiciosos 7% e a Administração oferecia...1,5%. A crise colocava em risco o futuro da empresa e todos teriam de contribuir. Parece lógico.
Como é costume acontecer nos países onde os sindicatos pouco ou nenhum poder negocial têm, ficou-se mesmo pelos 1,5%. Recentemente, soube-se quanto António Mexia recebeu no ano passado. Algo que o colocaria entre os 200 CEO’s mais bem pagos dos EUA, acima de Ballmer e Jobs, por exemplo. Sim, os nomes valem o que valem, mas parecem-me duas pessoas com muito mais risco nas suas vidas do que alguém que viveu sempre à custa da política (e não estou a falar do seu trabalho enquanto ministro) e que até convidou Santana Lopes para ser assessor jurídico da EDP. Não existem favores neste país, só amizades fortes. Já para não falar desse terrível mal que Ballmer e Jobs padecem: têm concorrência.
Como é óbvio, Mexia não é incompetente. A EDP, apostando na internacionalização e nas energias renováveis, é um caso de sucesso. Mesmo que todos nós paguemos mais que a média comunitária quando é hora de fazer contas no final do mês. A questão é: quanto vale a sua competência. Será ele e a sua administração o leme que guia a EDP a altos voos, por certo, mas será a sua tripulação tão deserta de qualidade que justifique uma discrepância tão grande a nível salarial? Uma discrepância traduzida apenas nisto: um salário diário de Mexia paga dois trabalhadores da EDP num ano. O sucesso de uma empresa em Portugal, muitas vezes chamada de "Organização" mesmo que seja pobre a esse respeito, parece resumir-se aos seus gestores, tudo o resto parece ser desnecessário e descartável. Pelo menos é o que se subentende quando se pega nos jornais económicos.
Alguns perguntam-se onde nascem as diferenças sociais em países desenvolvidos, como por exemplo acontece nos EUA. Compare-se com o que acontece noutro tipo de países desenvolvidos como a Noruega, Suécia ou Alemanha. Começa como em tudo, respeito pelo próximo. Como é óbvio, exigir cortes nos aumentos quando se recebe 3,1M€ anuais parece, à partida, pouco honesto.
EDP e PT rejeitaram o refreio que este governo se atreveu a fazer em relação a salários de administradores. A REN, empresa necessariamente acoplada à EDP, está mesmo a considerar cortar os 1,5% de aumento que acordou para aproveitar, e aqui aproveitar é mesmo a palavra, o congelamento de salários da função pública.
Elogie-se a competência sim, não se elogie a ganância.
19 abril, 2010
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3 comentários:
props
yep, concordo convosco claramente. e para que fique bem claro, apenas a gigantesca discrepância de salários far-me-ia automaticamente mudar de fornecedor energético para não cotribuir indirectamente para a continuação de uma situação destas. infelizmente em portugal não existe concorrência à EDP e uma pessoa tem que levar com situações destas.
É certamente por situações destas e de outros gestores de outras empresas que se vangloriam de receber 3,1 M€ e que sem vergonha alguma na cara referem que o merecem porque atingiram os objectivos mínimos (coisa que a empresa, segundo Mexia não fez nos anos antes de ser Presidente do Conselho de Administração) é que Portugal tem o coeficiente de Gini mais baixo da união europeia, a par com os novos aderentes Lituânia e Letónia. Para quem não sabe o que é o coeficiente de Gini: é uma medida de dispersão estatística que é hoje em dia utilizada, entre outras áreas, para medir a diferença entre vencimentos e riqueza de populações.
já agora, curiosamente, estamos no mesmo patamar do coeficiente de gini que a índia (conhecidíssima pelas igualdades sociais e ausência do sistema de castas). No extremo com valores mais baixos, os países da europa do norte: Noruega, Suécia e Dinamarca e no outro os casos de sucesso humanitário: Áfrcia do Sul, e República Central Africana, Namíbia, Botswana, Serra Leoa e Bolívia.
Portanto, continuando assim, estamos no bom cominho. Talvez para voltarmos a ser Espanha.
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