17 dezembro, 2009

População

Estava a escrever um comentário ao post do coolbeer sobre o custo de uma vida. O texto começou a ficar maior e maior, e tornou-se dificilmente legível como comentário. Portanto aqui post crescidinho.

Um dos filmes que mais me marcou até hoje, 21 Gramas de Alejandro González Iñarritu (primeira vez que me lembro de dizer "puta de um filme") tem como última fala o seguinte:
"They say we all lose 21 grams... at the exact moment of our death. Everyone. And how much fits into 21 grams? How much is lost? When do we lose 21 grams? How much goes with them? How much is gained? How much is gained? Twenty-one grams. The weight of a stack of five nickels. The weight of a hummingbird. A chocolate bar. How much did 21 grams weigh?" Portanto se ao deixarmos de viver perdemos 21 gramas, o mesmo que uma barra de chocolate, porque não assumir que a nossa vida nunca teve muito mais valor que isso - uma rasca barrita de merda com 21 gramas que se manda fora quando consumida. Custo - 1€ máximo!

Um elefante numa reserva natural tem um valor de cerca de 50€. Isto não é tirado da cartola e escrito ao calhas, são números calculados para extrapolar o fluxo de capital que um elefante gera pelo simples facto de existir e poder ser observado in vivo por alguém que pague por isso,após desconto de alimentação e todos as restantes despesasas necessárias.
Contudo, um humano qualquer que lá trabalhe possivelmente vale bem menos. Muito menos a sua família e amigos. Para mim certamente que o valerá (menos), confesso. Não gosto muito de pessoas e atribuo mais valor à existência de um qualquer animal inteligente (especialmente um cuja espécie está há séculos continuamente a ser dizimiada), do que a um humano dos quais existem 6.803.388.200! Dá máximo 1 elefante para quase 10.000 humanos. Poderia escrever elefante como qualquer outro mamífero ou ser inteligente.

Brincando mais com dados:
Um elefante consome cerca de 140 a 270 kg de comida/dia. Um humano bem nutrido ingere cerca de 4kg de comida/dia. Para alimentar toda a população de elefantes é necessário um mínimo de 65.800.000 e um máximo de 186.300.000 kg/dia.
Para humanos, 27.213.552.800 kg/dia. É extremamente provável que algures nos próximas décadas deixe de haver o suficiente para nutrir toda esta gentalha.

Toda a vida deveria ser (não simpatizo com o termo mas não me ocorre outro) SAGRADA.
Contudo, o valor de cada vida é sempre relativo. Hoje em dia é relativo certamente quanto ao sítio onde vivemos, ao que fazemos e a quem suscitamos simpatias. Resumindo ao mais básico, ao que dispomos para enriquecer outrem: € ou sentimentos de empatia. Um famoso e muito controverso "estudo" inglês da empresa BrainJuicer descobriu que dizer "I love you" tem um valor de £163.424 - cerca de 192 mil euros. É ridículo, mas demonstra que o bem estar tem um valor imenso.

A vida das pessoas que preenchem simultaneamente os requisitos de a)conheço-as e b) gosto delas têm certamente mais valor para mim do que um qualquer tipo vivendo no Zimbabwe que passa fome devido à inflação (excepção as pessoas que conheço e que preferia não conhecer - grande maioria). A ideia causa-me bastante constrangimento, mas certamente que não farei o mesmo para o ajudar que a um amigo que me peça um favor. A internet vem alterar isto um pouco, com vídeos de gente a sofrer malnutrição e atrocidades muito maiores à distância de um click. Mas não chega, e também não imagino forma melhor de criar o impacto necessário. Sofrimento existe, toda a gente o sabe, mas poucos são os que sequer param para pensar nisso.

Portanto, em parte concordo com o comentário do Gil.
Há claramente pessoas em excesso, pois os recursos são limitados e já o Malthus, em 1798, na sua obra "An Essay on the Principle of Population" calculava cenários de pobreza para uma população que não parasse de crescer. Daí consegue facilmente extrapolar-se n outros cenários negativos, ao lado dos quais a pobreza é certamente um mal menor. Crime, falta de condições mínimas de higiene, proliferação massiva de doenças, extinção de inteiros ecossistemas para manter algum conforto humano, etc. Tudo isto são impactos gravíssimos, especialmente a médio-longo prazo.

Por exemplo ter cerca de 17,3% da população humana na Índia a viver em apenas 2,3% da área habitável terrestre é algo ridículo... Onde há gente a mais há problemas, o mesmo estranhamente não se passa onde há pouca... Argumentem com crescimento económico, com PIBs per capita, isso não convence ninguém que seja minimamente informado. Uma pessoa conhecida de grande parte das pessoas deste blog foi 2 meses à Índia e descreveu-me aquilo sem grandes romantismos, dando-me a ideia de que ser pobre em Portugal é ser rico na Índia, pois viver bem lá é ter algo para comer, nada mais. Comparando com a Noruega, que ocupa o 1º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (a Índia no último estudo está no 134º lugar, Portugal no 34º), esta tem uma população de 4.848.474 (a Índia tem 1.198.003.000 - mais de 247 vezes superior) a viver numa área de 385,252 km2 (a Índia tem 3.287.240 km2 - apenas 11,5 vezes superior), mesmo colocando de lado a localização geográfica, e factores culturais associados, é muito fácil imaginar onde é que uma pessoa se sente melhor e onde cada vida individual tem mais valor para outrem. Numa zona escassamente povoada, com condições naturais adversas, onde a sobrevivência depende da existência em conjunto e colaboração, a perda de uma vida tem muito mais valor do que na maior cidade do mundo - Mumbai com 13.922.125 habitantes em 603 km2. Comparando uma cidade de área comparável, Madrid tem 603 km2 e "apenas" 3.213.271 habitantes. Lisboa tem 564.657 habitantes em 84,8 km2.

Certamente que não se pode negar o direito à vida a uma pessoa já existente (embora o conceito de 'aborto retroactivo' que muitas vezes me chegou aos ouvidos de gente nossa conhecida me cause algum fascínio), e medidas de imposição de limites de procriação também não são vistos com muito bons olhos (perfeitamente compreensível), mas mesmo assim, números são números, factos são factos. A nossa existência física não cai nesse emotivismo que nos caracteriza e nos obscurece o julgamento.
Se os recursos não são suficientes, não se come, não se produz electricidade, não se transformam materiais, não se tem cuidados de saúde, educação e mobilidade. Não se vive. Simples. Medidas drásticas precisam-se, ninguém quer sofrer das possíveis consequências.

Utilizando um modelo extremamente simplista, se a oferta aumenta, o preço baixa. Portanto, comparando com a vida de um dos (no máximo) 690.000 elefantes a 50€ cada, o valor da espécie como um todo é de 34.500.000€. Considerando que o valor da nossa espécie como um todo é o mesmo (pessoalmente pondero que, devido ao seu impacto negativo, valerá bastante menos, ao que grande parte de vós se oporá certamente), cada indivíduo terá um valor pouco maior que 0,005€.

Portanto, pelo preço incialmente discutido de um chocolate, posso comprar 200 de vocês canalhas.

1 comentário:

Anónimo disse...

Vamos lá ver e antes que isto descambe, eu estava a ser irónico no comentário anterior!

"
extremamente provável que algures nos próximas décadas deixe de haver o suficiente para nutrir toda esta gentalha.
"

esta frase não é nada linear. Havendo mais pessoas no mundo, há mais braços para cavar. Havendo mais tecnologia, há mais batatas por cabeça. Sobre este assunto o que interessa é a produtividade de uma determinada sociedade, i.e, o número de batatas produzidas por cabeça vs o consumo (o consumo/pessoa). Para a coisa ser estável: E[produção]=E[consumo]. Depois tens a limitação dos recursos: E[consumo/pessoa]*E[pessoas] < "limite qualquer _desconhecido_".

Talvez mais linear seja o facto de que qualquer crescimento constante (muitas vezes exponencial) implique uma instabilidade no processo e que em algum momento o sistema entre em disrupção.
Agora, para combater a natalidade, podemos observar o chamado "primeiro mundo": na medida em que a qualidade de vida aumenta, a população estabiliza ou mesmo diminui. É natural: os factores naturais de extinção estão mais calmos, as hormonas relaxam e há menos procriação. É também artificial porque o mito (religioso?) do contraceptivo é eliminado e o pessoal usa mesmo.

Em termos de valor de uma pessoa como o definiste, esqueceste-te das máquinas: na medida em que há mais máquinas que realizam o trabalho das pessoas (que é o seu valor), a vida das pessoas torna-se menos valiosa. E assim chego à pergunta chave cuja resposta não é 42, nem qualquer outra parvoíce sacada do mundo literário mas que a resposta pode ajudar a compreender o sentido da vida: "como avaliar o valor de uma coisa qualquer".


Esperemos então pelos próximos capítulos dessa história, que é a da Humanidade.



Gil