Numa altura em que a notícia de abertura dos 3 canais é a vinda do camacho po slb achei por bem dar a conhecer ao ilustre leitor uma outra notícia e se sabe um pouco mais de informação nunca fez mal.....
Os refugiados sudaneses no Chade só esperam que a prometida força das Nações Unidas chegue para montarem as suas tendas no Darfur Mariam Khamis Adam está aconchegada no chão, a usar marcadores gigantes para fazer desenhos sobre as suas memórias de infância. "Isto aqui são flores", diz ela, "e isto aqui são os Janjaweed a matar o meu irmão mais velho. Este é o meu outro irmão, ele fugiu de casa e conseguiu sobreviver. Mas depois morreu de uma doença".
Como muitas crianças do centro de tratamento psicológico no campo de refugiados em Djabal, na parte oriental do Chade, Mariam foi feita órfã pelas atrocidades no Darfur, a vizinha região do Sudão onde pelo menos 200 mil pessoas morreram desde 2003.
A maior parte dos refugiados tem histórias terríveis de violações e assassinatos cometidos pelos Janjaweed, uma milícia árabe armada por Cartum para ajudar a esmagar uma sublevação não-árabe, que procurava mais autonomia para Darfur.
Os mais novos podem ser de sorriso fácil, mas um olhar pelos seus desenhos aponta para a sua confusão interior. Para além de uma ocasional flor, há várias imagens de guerra repetidas: aviões a bombardear aldeias, cabanas em chamas, homens com armas a abater mulheres, atacantes a cavalo. Quando se lhes pergunta o que sentiam quando estavam a fazer os desenhos, todas as crianças respondem: "Senti-me zangada".
A actriz de Hollywood e activista dos direitos humanos Mia Farrow, uma embaixadora da boa-vontade da UNICEF, ficou notoriamente sensibilizada durante a sua visita de quatro dias, na semana passada, a este campo de refugiados.
"Tenho gavetas cheias de desenhos de crianças - tenho 14 filhos", disse Farrow. "E esses estão cheios de sóis e pessoas a sorrir. Estes são muito diferentes. Estou a olhar para helicópteros de ataque, para casas a arder. Estas imagens deviam ser vistas por toda a gente, para evitar que alguém negue que isto aconteceu. Esta é a mais pura documentação que existe."
Já lá vão mais de três anos desde que os 230 mil refugiados sudaneses que vivem ao longo da fronteira do Chade fugiram e a sua dor não diminuiu. Mas muitos estão optimistas em que uma nova força híbrida ONU-União Africana, autorizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em Julho, possa estar a caminho do Darfur antes do fim do ano.
"Se as tropas da ONU entrarem, gostaríamos de montar as nossas tendas em Darfur nesse mesmo dia", disse Osman Iman Osman, um líder dos refugiados do campo de Oure Cassoni, a quase cinco quilómetros da fronteira. "O nosso país é-nos muito precioso, é melhor do que aqui", afirma.
Os refugiados estão unidos no seu apoio a uma missão da ONU e só querem tropas ocidentais.
"Não queremos tropas africanas, só queremos soldados da ONU", disse Amna Adam Khamis, uma refugiada de 70 anos. "Não podemos confiar nas tropas da União Africana, que são as mesmas do Governo do Sudão. Estou optimista, mas, se as tropas forem africanas, fico pessimista." Apontando para um jornalista de televisão ocidental, Amna acrescentou: "Queremos pessoas do mesmo modelo, da mesma cor, que vocês".
A maior parte dos refugiados parece estar sob a ilusão de que uma força da ONU seja composta por tropas ocidentais, ao invés do cenário mais provável de soldados africanos sob comando estrangeiro.
"Fomos educados em árabe e imaginámos que éramos árabes. Mas, quando tivemos problemas, ninguém do mundo árabe nos veio ajudar", disse Izelden Khater, um jovem refugiado, à Reuters. "Quando viemos para aqui, em 2004, encontrámos pessoas brancas com tendas e medicamentos e cobertores. Foi por isso que acreditámos neles, que eles tinham vindo trazer a paz para nós."
Os refugiados estão unidos no seu desejo de regressar a casa, mas ainda estão profundamente traumatizados pelas suas experiências. Touma, uma jovem refugiada detida contra a sua vontade num campo Janjaweed, desmanchou-se em lágrimas ao contar a sua história de há três anos. "Eu tinha o meu filho às costas e estava a correr. Os Janjaweed bateram-me e eu caí. Tiraram-me o bebé e mataram-
-no", disse ela. "Levaram-me para o acampamento deles, fiquei lá três meses. Cozinhava e limpava para eles, e cuidava dos animais. Todas as noites, dez ou onze homens vinham violar-me. Eu chorava, mas ninguém me ajudava."
Conforme a violência em Darfur se vai espalhando ao longo da fronteira, a ONU admite mandar tropas para o Chade. Para Seid Ibrahim Mustafa, o antigo sultão de Dar Sila, uma área avassalada por violência interétnica semelhante à do Darfur, as tropas já deviam ter vindo. "Andamos a pedir uma força internacional há muito tempo", disse ele. "Quanto tempo mais vamos ter que esperar? Há muita burocracia. Duvidamos que venha depressa, mas o nosso desejo é que venha em breve, para que, pelo menos, possamos pensar na paz".
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