No outro dia cheguei a casa, fui lanchar. Liguei a Sic. Má ideia.
O espectáculo triste que se me deparou foram 2 putos a cantar uma musiquinha que, pelo cenário do estúdio, parecia ser da Floribella. Agora o problema, os míudos não tinham mais de 6 anos e estavam mais pintados, produzidos, arranjados que qualquer travesti às portas do Trumps. E pior, pelo que soube logo a seguir, não se tratou de um evento isolado, mas sim duma espécie de concurso, que se arrasta já há um tempo.
É nojento pensar que existem órgãos de comunicação em Portugal que usem crianças, ou melhor, que as manipulem da maneira mais subversiva, para publicitarem o seu produto. É extremamente fácil fazer crianças quererem que é giro, que é bonito, que é "rifixe" toda a palhaçada que se passa num programa como aquele. Basta meter lá meia dúzia de pessoas relativamente bem parecidas, com roupas coloridas, e rapidamente temos um aglomerado de Teletubbies bonzinhos, carinhosos, que gostam todos muito uns dos outros, que tocam numa banda, que fazem coisas de adultos como apaixonar-se, beijar-se, chatear-se, mas que não passam de uns vendidos do caralho, que tentam impingir valores morais às crianças, completamente vindos do nada, caindo da estratosfera.
CABUM - ah e tal, mentir é feio. CABUM - ah e tal, deve ser-se amigo dos outros. CABUM - ah e tal, não se brinca com as coisas dos outros. CABUM - o dinheiro não te faz feliz.
No outro dia li um excerto do Ricardo Araújo Pereira para a Visão a comentar toda esta merda que é a Floribella. Óbviamente que o texto em si era meramente humorístico, mas tinha lá pelo menos uma ideia mais profunda - A Floribella é um acontecimento que encaixaria perfeitamente no Estado Novo.
Ora vejamos, a protagonista é uma pobrezinha sem mamã, sem papã, sem ponta de educação (ao ponto de nem conseguir articular uma curta frase sem dar um pontapé na gramática), sem ambição, sem onde cair morta, que vive rodeada de pessoas que esbanjam dinheiro, que compram casacos de pele, que andam de Mercedes, que vivem numa Mansão com direito a cozinheira, motorista, a empregada - a própria Floribella.
Até aqui, isto parece uma novela qualquer, podia ser a cópia do Anjo Selvagem. Agora aquilo que distingue a Floribella do resto é o facto de a protagonista ser vítima da sociedade, viver rodeada daquilo que não tem e não se importar minimamente com isso. Tem o seu sonho, enquanto sonha não se preocupa. E que sonho é esse? Casar com o príncipe encantado, que por acaso é o patrão, que é bem parecido, que tem educação, que tem ambição, que tem dinheiro. O que as pessoas que conceberam esta ideia nos desejam transmitir é que não ter educação e ser pobre não tem consequências. É bonito, produz pessoas melhores, menos conscientes da realidade, mas melhores. E isso é uma mensagem extremamente perigosa para toda a população que não tiver a capacidade de discernir aquilo que é real, daquilo que é subversivamente manipulado e chamado de "ficção", sejam eles os pequerruchos que cantam, dançam, deliram, os pais que lhes compram os CDs, sapatos, camisolas, mochilas da Floribella, ou os avós senis que nada mais acreditam poder fazer, senão ver o programa à tardinha, pois andam a vegetar, a cagar na fralda, a poupar os seus míseros 25 contos de reforma num qualquer lar de 3ª idade da Santa Casa da Misericórdia, pois a vida para eles acabará nos próximos 2 ou 3 anos. Para quê preocupar-se?
Como o Defstoned referiu, assistir a isto repetidas vezes só fomenta uma coisa, o crescimento da indiferença que há em cada um de nós. É um espectáculo previsível, com situações ridículas, sem jeito, feito sem arte e entrega. É algo para vender, para meter a máquina de Marketing da Sic a funcionar, para que se consigam vender mais CDs e mais roupas coloridas. Pior que isso, é algo para nos estupidificar, para manipular uma geração inteira de pessoas em vias de formação.
Isto chega ao ponto de no outro dia vir no elevador e entrar uma vizinha com a sua filha toda vestida às cores do arco íris, com fones nos ouvidos, a ouvir óbviamente: "Não tenho nada e tenho tenho tudo / Sou rico em sonhos e pobre pobre em ouro". De repente a música acabou, a pita ficou sem pilhas, então começou numa berraria incrível no meio do elevador, a gritar: "Mamã, mamã, eu quero ouvir a floribella, eu quero ouvir a Floribella". Vim a aturar isto do 1º ao 3º andar, e o meu elevador é extremamente lento. Viver num prédio é uma merda. Viver num prédio com pessoas é pior.
Mas voltando ao tema inicial, depois de ter visto a "actuação" dos 2 putos, que foi obviamente extremamente aplaudida por toda a plateia, foram perguntar-lhe o que os putos mais gostavam na Floribella. A resposta foi demorada e soou-me bastante estranha, como se os putos estivessem a regurgitar algo que lhes tinham sugerido dizer minutos antes:
"Eu gosto muito da Floribella porque é pobre e não fica triste".
Isto foi a gota de água, meteu-me nojo. Manipularem crianças com mensagens subversivas é uma coisa; manipularem crianças com mensagens subversivas, usando outras crianças é bastante grave. Com a frequência com que tenho assistido a manifestações dessas, tenho algum medo de que toda uma geração de indivíduos se torne daqui a anos uma massa indiferenciável, sem capacidade analítca, sem valores que não os administrados exteriormente à massa, com o intuito de redireccionar o seu poder de compra.
E depois podem todos cantar em conjunto:
"Não tenho nada e tenho tenho tudo / Sou rico em sonhos e pobre pobre em ouro"
21 setembro, 2006
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